Gás de pimenta para temperar a ordem
Sexta-feira. Noite de 23 de outubro de 2009. Chácara Santo Antonio, bairro de São Paulo.
Relatarei apenas o que vi, junto com minha opinião. Não sei se vi tudo ou se vi demais, mas foi assim que aconteceu:
O som do carro de algum desajustado mental estava alto. Muito alto. Há três quarteirões de distância eu já estava ouvindo, antes de chegar no bar de alguns amigos. E, como já é de se esperar, era música de mau gosto. Acho que funk.
Estacionei meu carro na rua ao lado e fui a pé até a porta do bar. Graças ao sr. Governador, meus amigos não podem fumar dentro do próprio bar e estavam na calçada. A rua estava lotada – bar de faculdade costuma abrigar muitos bebuns no último dia da semana. Nenhum carro conseguia passar pela rua, até mesmo a Blazer da Força Tática (ou seja lá qual nome tiver o pelotão que anda com a famosa barca) que vinha vindo.

Famosa "barca" da PM de São Paulo
Uns cinco minutos depois, quando o carro da polícia já estava no final do quarteirão (garanto que não estou exagerando), uma viatura da Delegacia local – aquele Corsa sedan, que costuma ficar estacionado em grandes cruzamentos e multar os desavisados, sabe?! – passou pelo aglomerado de gente na minha frente. Sei-lá-como, o retrovisor direito do carro bateu num sujeito que estava na rua, bebendo cerveja e ouvindo o som amaldiçoado daquele desajustado mental que já falei. Também não-sei-por-quê-diabos, o cara, ao invés de fingir que não doeu e voltar pra calçada, reclamou com o policial no carona.
Qualquer um que já tenha sido “abordado” pela polícia de São Paulo à noite sabe muito bem que eles costumam ser tão delicados quanto um paquiderme!
Obviamente que o policial abriu a porta do Corsa com toda a força que ele tinha. E, claro, deu uma bela portada no coitado do reclamão. Aí o cara, pra completar (entendo que ele estava no direito dele, mas teria ganho muito mais se ficasse quieto), reclamou de novo. E levou outra portada. Nisso, vieram uns três policiais da Blazer correndo, com os cacetetes na mão e lascaram borracha no infeliz.
Muitos alunos da faculdade correram pelo auxílio do colega, alegando ene motivos para que o cara não fosse pra Delegacia e parasse de apanhar. Nada adiantou. Inclusive, esses apelos só deixavam os policiais mais bravos ainda.
Quando, finalmente, parecia que tudo ia ficar bem, um imbecil-filha-duma-puta resolveu jogar um copo de cerveja em cima do capô da viatura!
Pronto! Estava feita a praça de guerra.
Em poucos minutos, os policiais jogaram três bombas de efeito moral NO MEIO DOS ESTUDANTES! Vi nêgo correndo pra tudo que é lado, uns atropelando os outros e caindo na calçada (suja, diga-se de passagem).
Obviamente que me escondi no bar dos meus amigos e eles fecharam as portas com o bar cheio – niguém entrava nem saia.
Quando, pelo barulho lá fora, parecia que estava tudo calmo, as portas foram abertas de novo. MAIOR CAGADA QUE ELES PODIAM FAZER!
Mesmo com o tumulto acabado, os policiais haviam jogado gás pimenta na rua. E, pelo que deu pra perceber, muito gás pimenta. O gás entrou no bar e, em poucos minutos, os que ainda estavam lá dentro, ficaram porque estavam passando mal.
O excesso de “violência” à noite por parte da polícia, em São Paulo, é comum. Durante o dia os policiais são bastante atenciosos com o cidadão, chegando até a dar orgulho nos paulistas. Porém, à noite, se transformam. Por experiência própria, digo que as abordagens em enquadros batidas e aos transeuntes costumam ser “bastante enérgicas” e, muitas vezes, sem motivo.
No Rio, vemos uma polícia corrupta e ineficiente (procure na internet a diferença entre generalização e sinédoque, antes de me xingar). Em São Paulo, uma polícia extremamente abusiva.
Não sei o que aconteceu com o rapaz do retrovisor. Pelo que fiquei sabendo, foi na viatura com os policiais. Fiquei com pena dele; não tinha feito nada de mais ou de errado, além de não estar na calçada.
Não anotei as placas/identificações das viaturas ou nome dos policiais. Também não sei o nome do cara que foi levado. Não tirei nenhuma foto ou tenho como provar que isso aconteceu. O que foi escrito acima é apenas o meu relato e a minha opinião sobre a polícia de São Paulo.
Mesmo assim, prefiro uma polícia a lá Fleury que uma polícia bandida.
Propaganda – Nação Zumbi
letra: Jorge Du Peixe, Rodrigo Brandão e Gilmar Bolla
(…)
O poder ainda viciando cofres
Revirando bolsos
Rendendo paraísos nada artificiais
Agitando a feira das vontades
E lançando bombas de efeito imoral
Gás de pimenta para temperar a ordem
Gás de pimenta para temperar(…)
UPDATE: Fico imaginando porque, depois de quatro anos de faculdade, nunca vi policiais abordarem dessa maneira na Anhembi… (a faculdade do relato são da Unip)







